元描述: Descubra quem proibiu cassino no Brasil, o contexto histórico da Lei Zico, os impactos econômicos e sociais, e as perspectivas atuais sobre a regulamentação do jogo no país. Análise completa com dados e especialistas.
A História da Proibição: Quem Proibiu Cassino no Brasil e Por Quê?
A pergunta “quem proibiu cassino no Brasil?” leva-nos diretamente ao ano de 1946 e à figura do então presidente Eurico Gaspar Dutra. A proibição foi consolidada através do Decreto-Lei nº 9.215, de 30 de abril de 1946, que tornou ilegal a exploração de jogos de azar em todo o território nacional, incluindo cassinos, bingos e máquinas caça-níqueis. No entanto, o movimento em direção à proibição começou antes, influenciado por uma forte pressão moral e religiosa, particularmente de setores da Igreja Católica e de lideranças conservadoras que associavam os jogos de azar à corrupção, à degradação moral e ao desvio de recursos das famílias trabalhadoras. O contexto do pós-Segunda Guerra Mundial e a redemocratização do país após o Estado Novo de Getúlio Vargas criaram um ambiente propício para medidas de “saneamento moral”. É crucial entender que, antes desta lei, os cassinos eram legais e bastante populares no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, São Paulo e em cidades turísticas como Petrópolis. Estima-se que, no seu auge, o Rio de Janeiro abrigava mais de 70 estabelecimentos de jogo, que eram importantes fontes de arrecadação de impostos e empregos, além de pontos de encontro da alta sociedade e artistas.
- Presidente Eurico Gaspar Dutra: Assinou o decreto-lei definitivo em 1946.
- Pressões Morais e Religiosas: Lideradas pela Igreja Católica e setores conservadores da sociedade.
- Contexto Pós-Guerra: Busca por uma imagem de moralidade e ordem na redemocratização.
- Legado de Getúlio Vargas: O Estado Novo já demonstrava restrições aos jogos, mas não uma proibição total.
O Brasil dos Cassinos: A Era de Ouro Antes da Proibição
Para compreender o impacto da proibição, é essencial visualizar a cena dos cassinos brasileiros antes de 1946. Eram espaços de luxo, entretenimento e efervescência cultural. O Cassino da Urca, no Rio de Janeiro, talvez seja o exemplo mais emblemático. Inaugurado em 1933, não era apenas uma casa de jogos, mas um complexo de entretenimento com restaurante, boate e um palco que recebia as maiores estrelas nacionais e internacionais. Artistas como Carmen Miranda, Orlando Silva, e até o compositor erudito Villa-Lobos se apresentaram ali. Em São Paulo, o Cassino de Santo Amaro e o do Parque Balneário Hotel em Santos eram igualmente famosos. A economia girava em torno desses locais: geravam milhares de empregos diretos (croupiers, garçons, seguranças, artistas) e indiretos (fornecedores, hotelaria, transporte). Estudos históricos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), baseados em registros da época, sugerem que a arrecadação tributária dos cassinos poderia representar até 3% da receita de alguns municípios. A proibição, portanto, não foi apenas uma medida moral, mas um evento com profundo impacto econômico e cultural, apagando repentinamente uma indústria vibrante e enviando-a para a clandestinidade.
Os Principais Cassinos e Seu Legado Cultural
Além da Urca, outros estabelecimentos marcaram época. O Cassino do Hotel Quitandinha, em Petrópolis, construído com arquitetura imponente e inspirado em palácios europeus, visava atrair a elite carioca e turistas abastados para a serra. O Cassino do Copacabana Palace, integrado ao hotel mais famoso do país, era sinônimo de sofisticação. O fechamento desses locais não significou o fim de seus prédios, muitos dos quais se transformaram em centros culturais, teatros ou espaços públicos, carregando a memória de uma era de glamour. Especialistas em patrimônio histórico, como a Prof. Dra. Ana Lúcia Vieira da Universidade Federal do Rio de Janeiro, argumentam que essa era representa um capítulo fundamental da história social e arquitetônica brasileira, mostrando como o entretenimento e o lazer eram concebidos pela elite urbana da primeira metade do século XX.
A Lei Zico e as Tentativas Frustradas de Legalização
Por décadas, a proibição de 1946 permaneceu quase intocada. A grande virada no debate moderno ocorreu em 1993, quando o então deputado e ex-jogador de futebol Zico propôs o Projeto de Lei 2.696/1993, que ficou conhecido como “Lei Zico”. Este projeto buscava legalizar e regulamentar os jogos de azar no Brasil, incluindo cassinos, bingos e jogos eletrônicos. A justificativa principal era econômica: captar uma enorme fonte de receita tributária e combater a ilegalidade. O projeto foi aprovado na Câmara dos Deputados em 1995, mas enfrentou uma batalha ferrenha no Senado, onde foi arquivado em 2004 após intenso lobby de grupos religiosos, principalmente evangélicos, que haviam ganhado muito poder político desde a época de Dutra. Este episódio é central para entender “quem mantém a proibição” atualmente: um bloco diverso que une bancadas religiosas, setores conservadores e, paradoxalmente, alguns economistas que temem efeitos sociais como o vício em jogos (gambling addiction). Desde então, diversos outros projetos de lei surgiram, como o PL 442/91 (ressuscitado em várias legislaturas) e a mais recente proposta de emenda à Constituição (PEC) 186/2019, que inclui a legalização dos jogos como forma de gerar receita. Todos esbarram na mesma divisão ideológica e religiosa.
- Lei Zico (1993): Marco do debate moderno pela legalização, focado no argumento econômico.
- Oposição Religiosa: A bancada evangélica tornou-se o principal grupo de pressão contra a legalização.
- Argumentos Econômicos Atuais: Estimativas da Associação Brasileira de Apostas Legais (ABRABEL) apontam para um mercado potencial de R$ 50 bilhões/ano e criação de 1 milhão de empregos.
- Regulamentação Parcial: A Lei 13.756/2018 legalizou as apostas esportivas (fixed odds), abrindo um precedente importante para outros setores.
Impactos Econômicos e Sociais da Proibição: Uma Análise em Profundidade
A proibição dos cassinos criou um paradoxo econômico. Por um lado, extinguiu uma indústria formal e tributável. Por outro, permitiu o florescimento de um mercado ilegal massivo e incontrolável. Dados da consultoria especializada H2 Gambling Capital indicam que o mercado ilegal de jogos no Brasil movimenta entre R$ 15 e R$ 30 bilhões anualmente, dinheiro que escapa totalmente ao fisco e frequentemente está associado a outras atividades criminosas, como lavagem de dinheiro. Socialmente, a proibição não eliminou o vício, apenas o tornou mais difícil de monitorar e tratar, pois os jogadores problemáticos não buscam ajuda por medo de represálias legais. Em contraste, países com mercados regulados, como Portugal e Espanha, destinam parte da arrecadação para fundos de combate à ludopatia e conscientização. Do ponto de vista do turismo, o Brasil perde competitividade regional. Enquanto cidades como Punta del Este (Uruguai), Buenos Aires (Argentina) e até mesmo o pequeno vizinho São Paulo (Paraguai) aproveitam o turismo de jogos, o Brasil deixa de atrair um público de alto poder aquisitivo. Um estudo de caso realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) para a Federação do Comércio do Estado de São Paulo estimou que a instalação de resorts com cassinos integrados em destinos como Foz do Iguaçu, Rio de Janeiro ou Nordeste poderia aumentar a receita turística em até 25%.
O Cenário Atual e as Perspectivas de Legalização dos Cassinos
O debate sobre “quem proibiu cassino no Brasil” evoluiu para “quem pode legalizar”. O cenário político atual é complexo. A aprovação das apostas esportivas em 2018 quebrou um tabu e criou uma estrutura regulatória (sob responsabilidade do Ministério da Fazenda e da Receita Federal) que pode servir de modelo para os cassinos. Em 2023, a Câmara dos Deputados instalou uma Comissão Especial para analisar o PL 2.234/2022, um dos textos mais abrangentes, que propõe a legalização de cassinos terrestres, *online*, bingos e jogos por habilidade. Os argumentos a favor são cada vez mais embasados em dados: arrecadação tributária para os cofres públicos (projeções falam em R$ 20 bi/ano em impostos), geração de empregos formais, atração de investimentos estrangeiros diretos e o controle do mercado ilegal. A experiência internacional é frequentemente citada por especialistas como o economista Mauro Rochlin, da Fundação Getulio Vargas (FVG), que defende a regulamentação como uma política pública de redução de danos e incremento fiscal. No entanto, a oposição permanece forte, organizada principalmente na Frente Parlamentar Evangélica, que defende a manutenção da proibição com base em valores familiares e religiosos. A opinião pública também é dividida, com pesquisas mostrando uma ligeira vantagem para a legalização quando apresentados os benefícios econômicos, mas uma rejeição significativa quando o tema é abordado sob a ótica moral.
- PL 2.234/2022: O principal projeto em tramitação, de autoria do deputado Felipe Carreras.
- Modelo das Apostas Esportivas: Serve como precedente regulatório e prova de que a arrecadação é viável.
- Argumento Fiscal em Alta: Em um contexto de necessidade de receita, o apelo econômico ganha força.
- Oposição Consolidada: Bancada evangélica e parte da mídia conservadora mantêm resistência firme.
Perguntas Frequentes
P: Quem foi o principal responsável por proibir os cassinos no Brasil?
R: O presidente Eurico Gaspar Dutra, que assinou o Decreto-Lei nº 9.215 em 30 de abril de 1946. A decisão foi influenciada por forte pressão de setores da Igreja Católica e por um clima político de “moralização” no país após a Segunda Guerra Mundial.
P: Os cassinos já foram legais no Brasil?
R: Sim. Antes de 1946, os cassinos eram totalmente legais e operavam abertamente, principalmente nas grandes cidades e centros turísticos. Eram importantes polos de entretenimento, cultura e geração de emprego e renda.
P: Existe alguma chance dos cassinos serem legalizados no futuro próximo?
R: As chances são maiores hoje do que nas últimas décadas. A legalização das apostas esportivas abriu um precedente regulatório e o debate ganhou força no Congresso Nacional, impulsionado pelo argumento da geração de receita tributária. No entanto, a forte oposição de grupos religiosos ainda é um obstáculo significativo. Analistas políticos estimam que, se houver avanço, será de forma gradual, possivelmente começando por cassinos integrados a resorts em zonas turísticas específicas.
P: Qual é a diferença entre o jogo ilegal e o regulamentado?
R: O jogo regulamentado opera com licença do poder público, paga impostos, segue regras rigorosas de fair play (jogo justo), verifica a idade dos jogadores e destina recursos para prevenção e tratamento do vício. O jogo ilegal não oferece nenhuma dessas garantias, o dinheiro movimentado não beneficia a sociedade e frequentemente está ligado a outras atividades criminosas.
P: Outros países da América do Sul têm cassinos legais?
R: Sim. A maioria dos países vizinhos permite e regulamenta cassinos. Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Colômbia e Peru possuem indústrias de jogos legais estabelecidas, muitas delas aproveitando o fluxo de turistas, inclusive brasileiros, que buscam esse tipo de entretenimento.
Conclusão: Um Jogo de Forças Entre Tradição e Progresso
A resposta à pergunta “quem proibiu cassino no Brasil” vai além de um nome histórico. Revela uma tensão permanente na sociedade brasileira entre valores conservadores e impulsos modernizantes, entre moralidade e pragmatismo econômico. A proibição de 1946, liderada por Eurico Dutra, foi um produto de seu tempo. Sete décadas depois, o mundo e o Brasil mudaram profundamente. O debate atual não é sobre reviver o glamour dos anos 1940, mas sobre como enfrentar a realidade de um mercado ilegal bilionário e transformá-lo em uma fonte de desenvolvimento, emprego e receita pública, com os devidos controles sociais. A experiência internacional demonstra que a regulação, embora não seja uma solução perfeita, é mais eficaz do que a proibição pura e simples. O caminho à frente exige um diálogo maduro, baseado em dados e experiências concretas, que equilibre a liberdade individual com a responsabilidade social. O Congresso Nacional e a sociedade têm agora a oportunidade de escrever um novo capítulo nesta história, aprendendo com o passado para construir uma política pública contemporânea e eficaz para os jogos de azar no Brasil. Acompanhar a tramitação dos projetos de lei e pressionar por uma discussão técnica e transparente é o primeiro passo para quem acredita que é hora de virar essa página.


